Antônio Ferreira de Andrade, um homem de caráter ilibado

Redação 12/05/2018 Memória
Memória

“Palavras cativam, mas exemplos arrastam”. Com essa frase começo o Memória de Antonio Ferreira de Andrade, mais conhecido como Toninho da Caçula, pelo fato de por mais de 10 anos trabalhar em uma serraria em Tangará da Serra que tinha esse nome.
Nasceu em Vila Progresso, interior de Lajeado no Mato Grosso do Sul, em uma família grande, de onze irmãos, que apesar de grande,  não chegava a passar dificuldades, uma vez que os pais eram esforçados e  criavam condições de manter a todos sempre bastante supridos.
Moravam na roça, de onde tiravam o sustento e cultivavam quase tudo que consumiam, necessitando então, comprar pouquíssimas coisas.
Segundo a esposa, Dona Cloíce, que nos narra a história, a mãe do esposo era muito trabalhadeira e prendada, e, portanto, fazia de tudo para gastar pouco, inclusive vinho, já que a família possuía um vasto parreiral. Esse sim era vendido gerando renda para a família. “Minha sogra fazia tudo que eles comiam em casa”.
No dia 11 de agosto de 1949 Antonio nasceu, e cresceu feliz trabalhando na terra que a família tinha. Estudou até o primeiro grau e quando tinha 16 anos, mudou-se para  Lajeado, para estudar. Ali conheceu aquela que seria a mulher  de sua vida, Cloíce, com quem se casou depois de quase sete anos de namoro, em 1970.
Com família composta, trabalhou em escritório e em muitos outros locais, mas segundo a esposa, se encontrou mesmo, quando foi trabalhar em serraria. Isso era seu grande amor, com toda certeza.
Morando em Lajeado, a primeira filha do casal, Magda, chega para alegrar ainda os eternos namorados.
Passado algum tempo, em busca de maiores e melhores oportunidades decidem se mudar para Santa Catarina e assim o fizeram. Nessa época, o casal já tinha sido novamente presenteado com mais um filho, ao qual deram o nome de Rodrigo.

Um sonho de mudança que trouxe mudanças

Ali, ouvem pela primeira vez, falar do Mato Grosso, e mais especificamente, de Tangará da Serra. “Meu cunhado tinha uma carreta e meu marido trabalhava com ele transportando madeira para vários locais. E havia um casal que tinha uma oficina, onde meu cunhado consertava a carreta e diziam que queriam vir embora morar no Mato Grosso, os Ponssoni, e meu cunhado se ofereceu para fazer a mudança”, lembra a esposa.
Arrumaram então tudo na carreta e se colocaram a caminho. Chegando em terras tangaraenses, tanto Antonio, quanto o cunhado viram grandes oportunidades.
Entre um papo e outro com pessoas do lugar, descobriram que Joaquim Aderaldo estava vendendo uma serraria. O procuraram, fecharam o acordo e acertaram que Antonio mudaria para Tangará e ficaria à frente do negócio, beneficiando a madeira, que o cunhado buscaria para revender.
Retornaram então a Santa Catarina e deram as boas novas à família, quando encontrou grande reserva da esposa. “Eu não queria vir de jeito nenhum. Ele  foi me colocando só coisa boa na cabeça, no pensamento dele”, conta a esposa sorrindo.
De tanto ouvir belas histórias, formuladas pela mente do esposo, Cloíce cede, e  acompanha o esposo, no ano de 1980, agora com a terceira filha, Márcia com apenas nove meses.
“Aí a gente veio. Sete dias na estrada. Foi ter-rí-vel! A nossa mudança era pouca e pegou um pequeno espaço na carreta e veio batendo. Chegou toda desmontada aqui as nossas coisas. O meu fogão à lenha desmontou todo. O meu chaminé deitaram em cima do meu sofá e acabou com o sofá, porque aquela coisa da chaminé nunca mais saiu. O fogão a gás não tinha um parafuso que não estava solto. Quando chegamos aqui eu lembro que descendo ali na Vila Goiânia vi uma nuvem e falei, nossa, a serração é diferente, é vermelha. No outro dia eu descobri que era poeira”, relembra sorrindo maravilhosamente, ao recordar o dia que pisou o solo tangaraense.
Segundo a filha Magda, a mãe não queria descarregar a mudança, queria voltar. “Eu chorei seis meses”, sorri a esposa.

“Ou você zera o seu nome ou zela do seu nome”, pensava Antônio

Aqui Toninho ficou tocando a serraria como combinado, mas depois de um tempo, as coisas saíram do contexto combinado e isso o deixou bastante chateado. A sociedade com o cunhado se desfez e após um tempo, se mudou para a São Jorge, onde também foi contratado para tocar uma serraria. Mas, novamente, o combinado não foi cumprido pela parte do patrão e mais uma vez teve que pegar a família e voltar para Tangará para recomeçar. “Meu pai era daqueles que o fio do bigode valia mais que uma assinatura, por isso ele não concebia alguém fazer coisas erradas porque se ele empenhasse a palavra chovia canivete, mas não voltava atrás, mesmo que isso o prejudicasse. Para o meu pai ou você zera o seu nome ou zela do seu nome”, recorda a filha Magda.
Depois de um tempo, recebe a proposta de trabalhar na serraria Caçula, de seu Diego, com quem ficou por muitos anos. Nesse ínterim, montou uma mercearia para a esposa, que depois passou a ser ponto de encontro dos amigos, uma vez que era muito popular e fazia um churrasco como ninguém. “As mesas ficavam no meio das prateleiras, dificultando para quem vinha comprar, daí a gente viu que tinha que ficar ou com a mercearia ou com o restaurante”.
Fecharam a mercearia e abriram “Os assados do Toninho” e ali praticava seu segundo hobby, fazer churrasco e Xixo.
O negócio ia bem, mas o cansaço era grande, sendo assim, o casal fecha o negócio e Antônio volta a trabalhar na serraria Caçula.

A Homenagem

Os anos foram passando e Cloíce alimentava o sonho de ir embora, mas Antônio nunca sequer, ventilou a ideia, dizia que não voltava e que suas vidas seriam em Tangará. “Ele não queria ir embora daqui. É Tangará. Eu quero ficar aqui”, conta Magda emocionada.
Foi candidato a vereador, presidente da Escoalta. Participou de conselhos deliberativos das escolas onde os filhos estudavam e também da creche SOS, sendo também, patrão do CTG.
No dia18 de dezembro de 1996 saiu para o trabalho, onde trabalhava normalmente e reclamou de uma tontura. Foi ao banheiro e por estranharem a demora, amigos arrebentaram a porta e o encontraram sem vida, vítima de um infarto fulminante, aos 47 anos.
Por trabalhos relevantes e inúmeros serviços reconhecidamente prestados ao Município, teve seu nome imortalizado em uma das ruas da cidade, no Jardim Rio Preto.

Rosi Oliveira / Especial DS



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