Um ranchinho a beira chão: em busca de pão e vinho

Iolanda Garcia / Rodney Garcia 24/08/2018 Memória

Seu Jorginho e dona Maria chegaram a Tangará da Serra em janeiro de 1966

Memória

Fugindo da fome
Jorge Simão da Costa, natural de Bom Jesus, 83 anos a completar em 15/10, e Maria dos Prazeres da Costa, natural de Mata Verde, 78 anos a completar em 10/10, são dois potiguares que, como tantos outros migrantes, há 52 anos estão em Tangará da Serra. Juntamente com outras famílias, fugindo da fome, embarcaram em um pau-de-arara em 1966, com destino a Mato Grosso. “Meu filho, viemos rolando, até chegar aqui em Tangará da Serra... A gente veio, com mais três famílias, até Rondonópolis, acompanhando um cunhado de um cunhado, chamado João Costa. Lá, ficamos alguns dias... O Astrogildo nos trouxe de Rondonópolis para Tangará. A estrada não parecia coisa de Deus. Tinha lugar que a a gente achava que o caminhão não ia passar... E aqui estamos até hoje”. Casal de poucas letras, amansadores de mato, agricultores de subsistência, se nutrem da esperança e da aposentadoria de um salário mínimo que um dos cônjuges recebe.
Acossados pela fome e pela falta de perspectivas, a busca pela sobrevivência levou o jovem casal, com uma filha, a buscar em solo mato-grossense “o pão nosso de cada dia.” Juntaram as poucas coisas que tinham – roupas e ferramentas – e embarcaram em um pau-de-arara, juntamente com outras famílias, em busca de um pedacinho de terra que lhes garantisse o sustento. “Meu filho, eu nunca tive medo de trabalhar. Só aprendi a lidar com a terra. Não sei fazer outra coisa. No meu tempo, não tive oportunidade de estudar. Só me restaram a enxada, a foice, o machado, o enxadão. Vim buscar em Mato Grosso: um lugar para trabalhar e poder tratar da mulher e das crianças.”


Amansador de mato

Seu Jorginho e dona Maria chegaram a Tangará da Serra em janeiro de 1966. “Aqui existia apenas algumas casas, umas de madeira, outras de pau-a-pique, coberta de tabuinha ou de sapé. Acho que não chegavam a 200. Tinha a farmácia do Erotildes, alguns armazéns que vendiam secos e molhados. Nem panela a gente tinha. A gente cozinhava em lata de banha de 2 litros e a gente só tinha aquelas latas para cozinhar alguma coisa,” relembra dona Maria.
Aqui conheceram seu Francisco Avelino Dantas, com quem trabalharam como arrendatários por duas colheitas. Seu Jorginho registra que, para comer e plantar, as pessoas emprestavam alimentos e sementes, que, ao término da colheita “se a gente pegasse um saco de arroz, um saco de feijão ou um de milho emprestado, a gente tinha que devolver dois sacos de cada produto para quem tinha arrumado os mantimentos para a gente. E, desse jeito, ludibriando a fome, a gente ia tocando uma terrinha aqui, outra acolá”.
Dona Maria relembra que, quando aqui chegou, não tinha máquina para beneficiar arroz. “Quem o quisesse limpo, tinha que limpar no pilão. Quem tinha condições, mandava limpar na Barra do Bugres”.  Seu Jorginho complementa informando que o Zé Giró foi o primeiro a instalar uma máquina de beneficiamento de arroz. Segundo ele, a máquina cobrava uma porcentagem para limpar o arroz e ficava com o farelo. “O arroz era tipo bica corrida. Não era classificado e nem polido. A gente trazia sempre duas ou mais sacas de arroz para ser limpo. Pagava a parte para o dono da máquina e levava o restante para casa”. Com o tempo, surgiram outras máquinas.
Seu Jorginho trabalhou com o Chicão Preto, na diária, batendo pasto, fazendo cerca, capinando. “A gente tinha que fazer uns biquinhos para conseguir algum dinheiro, enquanto aguardava a colheita. Mas nem sempre a gente tinha terra para trabalhar. O jeito era fazer o que aparecesse. E assim, fomos levando a vida”, relembra seu Jorginho.


A conquista

Com um pouco de dinheiro que conseguiu ganhar, seu Jorginho comprou uma carroça e um cavalo e, por algum tempo, trabalhou como carroceiro, fazendo pequenos fretes. Como ele mesmo declarou: “A gente tinha que se virar. Não dava para ficar reclamando”. Com o tempo, esse tipo de ocupação foi perdendo espaço e seu Jorginho teve que buscar outras ocupações.
Com os muitos trabalhos realizados em terras alheias, no ano de 1976 já tinha juntado dinheiro suficiente para comprar um lote urbano, localizado na Rua 17, próximo à Avenida Tancredo Neves; mas não tinha dinheiro para construir uma casinha. Vendeu a propriedade e comprou um lote na Esmeralda, onde construiu um barraquinho para colocar a mulher e os filhos. Neste mesmo ano, foi trabalhar com seu Dorvalino, um português, no cultivo e na colheita do café, onde permaneceu por três anos.
Nos anos 80, na Comunidade Tapera, derrubou mato, tocou roça e, após três anos de exploração da terra, devolveu ao proprietário, com o pasto formado. “Ali foram três anos de sossego, alegria e fartura. O João Girotto sempre trazia alguma coisinha pra gente. Ajudava sempre que a gente precisava. Nunca deixou faltar nada,” relembra seu Jorginho. E, segundo dona Maria, este foi um dos muitos lugares em que trabalharam que deixou saudade.


A grande obra

Aqui, tornaram-se adeptos da Congregação Cristã do Brasil e falam, com entusiasmo, de terem contribuído para a construção do templo da mesma. “A gente trabalhava a semana inteira para a gente e, nos finais de semana e nos feriados, aquele mundaréu de gente se juntava para construir a Igreja... Aquela localizada ali na Rua Nove. Com a benção de Deus e a união entre os irmãos de fé, temos um templo bonito, agradável, onde podemos orar e louvar ao senhor nosso Deus,” registra dona Maria.


O sonho retirante

Considerada missão cumprida, seu Jorginho e dona Maria deixaram para o mundo dois filhos, cinco netos e dez bisnetos. Moram em uma casinha “construída em mutirão pelos irmãos da Congregação” e, como dizem, “com a graça de Deus, a gente vai levando. A gente não passa fome. A gente tem tudo para não passar fome. Tem sempre arroz e feijão”.
Com saúde fragilizada, o casal cuida de algumas hortícolas, como, por exemplo, cana-de-açúcar, cajueiro, cebolinha, mandioca e arbustos ornamentais. A vontade, nas palavras de dona Maria, além de se aposentar e colocar um dinheiro a mais na casa, é voltar para o Rio Grande do Norte.
A exemplo de tantos outros, seu Jorginho e dona Maria são a síntese de homens mulheres invisíveis que deram seu vigor, sua saúde e seus sonhos para o desenvolvimento deste Município.



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