O goiano retirante: vencendo desafios e deixando marcas

Iolanda Garcia / Rodney Garcia 05/10/2018 Memória

Eurípedes de Freitas, goiano de Nerópolis

Memória

A luta pela vida: 
vítimas de picaretagem e recomeços

Eurípedes de Freitas, goiano de Nerópolis, chegou a Tangará da Serra com dezesseis anos de idade. Dos sessenta e seis anos vividos (26/02/52), cinquenta foram dedicados a esta terra, a esta gente. Foi lavrador, sacristão, vendedor, sapateiro, madeireiro, agente da SUCAM, técnico em contabilidade, bancário, trabalhou em empresas que transportavam cargas e encomendas.


Eurípedes disse que, em 1968, quando jovem, do nada, “deu a ‘sapituca’ no meu pai e ele vendeu tudo que tínhamos e trouxe a gente para Mato Grosso. Nossa primeira parada foi em Nova Olímpia, onde compramos uma terra. O homem que nos vendeu, deu um golpe em meu pai. Ficamos sem dinheiro e sem a terra. Seis meses depois, subimos a serra. Meus pais conseguiram uma casinha aqui na cidade. Ele arrendou um pedaço de terra, ali no Progresso. As mulheres ficavam na cidade e nós íamos a pé até lá. Derrubamos o mato, queimamos; encoivaramos e queimamos de novo. Nas primeiras chuvas, nós plantamos. O dono só dava a terra; a gente derrubava, limpava, plantava e tinha que dar a metade da produção para o dono da terra. Trabalhamos ali por dois anos. Em 71, fomos para Água Branca, onde meu pai permaneceu cinco anos. Lá, trabalhei apenas um ano. Meu pai ainda trabalhou lá até 1976. Eu vim para cidade, cuidar da minha mãe e de minhas irmãs”.


Além da terra, os primeiros ofícios 

Na cidade, relata Eurípedes, foi convidado por um amigo a exercer o ofício de sapateiro.  “Trabalhei algum tempo na sapataria Nova Esperança, trocando sola de sapato, fazendo botina”. Essa mesma sapataria, mais tarde, foi comprada pelo senhor João Batista, hoje, patrono da Escola Estadual localizada na Av. Ismael José do Nascimento, com o qual estabeleceu relações profissionais e pessoais, vindo a ser padrinho de batizado de uma das filhas do ex-patrão. Atuou no comércio, como vendedor.


Nem só os feitos corriqueiros marcam a narrativa do entrevistado: a fome e o frio ganharam destaque em um episódio. Entre um serviço e outro, a busca por qualidade de vida levou Eurípedes ao trabalho em serraria. “O Zé Minhoca tinha uma serraria pica-pau. Trabalhei lá por algum tempo. Aqui tinha muitas serrarias a fita, consideradas modernas. Depois, trabalhei com caminhão, puxando madeira. Uma vez, vindo da Água Branca, o caminhão quebrou. Não tínhamos nada para comer e estava um frio danado. Tudo estrada de chão. Chegando na beira da estrada, o Joaquim Aderaldo nos deu uma carona. Paramos no Joaquim do Boche. Já era tarde da noite. A estrada estava muito molhada. Não dava para andar. Ele se agasalhou com um saco de estopa e me deu outro para que eu me agasalhasse. Imagine, passando frio e a dois dias sem comida. Foi difícil dormir”.


O teatrólogo 

Nesse ínterim, entre estudo e trabalho, conheceu Amauri Tangará, com quem contracenou algumas vezes. Como muitos jovens, o teatro coordenado por Amauri era uma das muitas opções de entretenimento e uma das poucas opções culturais. “Tinha gente que gostava de futebol; tinha gente que gostava de cinema. Aqui tinha o cine Alvorada. Depois é que veio o cine Esplanada. Eu gostava de interpretar. Éramos um grupo grande e Amauri Tangará era apaixonado pelo que fazia, e isso contagiava a gente”. Relatou o entrevistado. (na foto: Eurípedes, em pé, e Amauri Tangará, sentado – acervo do entrevistado).


O plebiscito e a emancipação 

Registrou que Tangará da Serra, foi tomada por muita alegria com a possibilidade de vir a ser Município. “Estávamos todos imbuídos mobilizados para garantir o número de votos suficientes para que virássemos município. Felizmente, todos aderiram à ideia e eu não me lembro de ninguém ter votado contra”. Lembrou-se de alguns nomes proeminentes que se empenharam na campanha para que esse distrito fosse elevado à categoria de Município: José Amando, Thais Barbosa, Hélio Tavares, dentre outros considerados ilustres, à época. Em 1975, um plebiscito define pela emancipação político administrativa de Tangará da Serra. Ainda sobre a emancipação político-administrativa, destacou o trabalho dos dois primeiros prefeitos (Thais e Porfírio), como investimento em infraestrutura, como malha viária rural, energia elétrica, maquinários para a Prefeitura, e a oferta de serviços básicos, como, por exemplo, saneamento, coleta de lixo e escolinhas rurais.


A futura esposa

Em 1975, o ensino médio, à época, segundo grau,  e o grupo de jovens se encarregaram de aproximar Eurípedes e Maria Lenice. A jovem recém-chegada de Recife caiu nas graças do moço. “Eu, sem nenhuma bicicleta para andar, não tinha como arrumar uma namorada. Um dia, cheguei à casa dos pais dela e pedi autorização para que namorássemos. Eles aceitaram. Ela não sabia de nada,” relatou entre risos para, em seguida, declarar: “Ela foi a melhor coisa que me aconteceu”.


•Enfim, casados
Nesse ínterim, o namoro prosseguia e a vontade de casar era a motivação. Mas, o dinheiro que ganhava ainda não dava para casar. Inicialmente, o enlace aconteceria em maio de 1979. Com grana curta, a data foi transferida. Porém, batalhou por um emprego que pagasse melhor. Ingressou no serviço bancário, onde trabalhou por onze anos. Em setembro de 1979, Eurípedes e Maria Lenice casaram, tiveram uma filha, que o agraciou com um casal de netos.


No ano seguinte, o jovem casal mudou para Denise-MT e, em seguida, aventurou para Rondônia. Não obtendo êxito, retornam para Tangará da Serra em 1984, de onde não mais saiu, e hoje trabalha em uma chácara, de propriedade da família. 


“Foi a Lenice quem despertou em mim o interesse por equinos. Graças ao seu trabalho na APAE com equoterapia,  seu envolvimento em cavalgada e posterior criação de uma comitiva, despertaram em mim a paixão por cavalos.”
 



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