Manoel Leal, o matogrossense que repousou em Tangará

Redação DS 21/07/2017 Memória
Memória

Manoel Leal, Manoel da Escolar, como ficou conhecido, matogrossense de Poxoréu, nascido em 30 de maio de 1946, chegou à Tangará da Serra 20 anos depois. Aos 23 anos casou-se com Maria Nascimento da Silva, mineira de Itaiomim. Constituíram família e investiram no comércio, desde então.
Manoel, moço, palavra dada é palavra cumprida - Desde cedo, Manoel Leal aventurou-se pelas estradas, em busca da terra prometida. Depois de morar em Vilhena, Porto Velho e Cuiabá (1964 e 1965), um cunhado o convidou para vir a Tangará da Serra para trabalhar no comércio, especificamente com secos e molhados. No dia 05 de junho de 1966, depois de um dia de viagem da capital até aqui chegaram a Tangará da Serra. Era uma sexta-feira. Na manhã seguinte, descarregaram o caminhão, marcaram a mercadoria e, na segunda-feira, Manoel estava só, cuidando de um comércio que não era seu. Manoel admite que pensou em abandonar tudo e voltar; mas tinha assumido um compromisso com o cunhado e não deixaria na mão. Conforme suas palavras: “ele foi embora e o comércio de “secos e molhados” ficou na minha responsabilidade. Eu não podia deixar o comércio dele ali sozinho, não tinha como ir embora. Aí eu fui ficando. Muita dificuldade e não fui embora de Tangará”.


De gerente a dono: os desafios do abastecimento

Foram três anos à frente do Comercial Avenida, quando, em 1969, seu cunhado decide trabalhar no sítio. Manoel admite que não tinha vocação para lidar com  a terra e, em comum acordo, virou dono do empreendimento. “Já faz 48 anos que toco meu próprio negócio,” enfatiza Manoel.
Quanto aos desafios enfrentados para se manter um comércio estavam o se chegar à cidade, em especial, com produtos para abastecer o comércio e atender a demanda da população. Em suas palavras, “quando vim para cá não subia a serra, era muita dificuldade, a gente vinha por Nortelândia. De Nortelândia até em Afonso não era uma boa estrada também. Sobe e desce naquela serra entre Arenápolis e Afonso, não passava naquela estrada que tem hoje. De Afonso para cá, aí é que começava o desespero. Como eu vim na época da seca, foi em maio, ainda veio bem, mas quando começou a chover, aí pronto! Trancava tudo. Era difícil para gente chegar a Cuiabá”. Ele lembra que a saída de Tangará para Cuiabá passava pela cabeceira do Córrego Estaca, para sair no Distrito de Progresso. “Com passar dos tempos abriram a estrada na serra, e tinha muito atoleiro”. Quanto à reposição de estoque de mercadoria, Manoel Leal lembra que “para ir para Cuiabá fazer compras, às vezes, tinha que chegar lá e arrumar carro, tudo para ver a mercadoria, fazer a compra na Capital e trazer para cá. Passado muito tempo, foi começando a aparecer carro de transporte, carregamento de mercadoria”.
Em 1971, seu Manoel decide abandonar o segmento de secos e molhados para se dedicar à papelaria. Tal decisão foi motivada pela proliferação de comércios similares. Ele percebeu que a cidade comportaria uma loja para o segmento e assim o fez. “Pensei assim, aqui tem muita concorrência no setor de secos e molhados; vou mudar para um comércio que quase não tem.” Em suas palavras, em um primeiro momento, não foi uma boa escolha, pois eram poucos os alunos. “Eu fiquei insistindo. Depois, de passado algum tempo, começaram a surgir outras escolas e aí foi aumentando a população, foi aumentando o comércio. Apesar de muitos problemas que a gente enfrentou, estamos aqui até hoje”.


A religiosidade e o serviço comunitário

Tangará era uma cidade calma, o que movimentava eram as festas de igreja. Manoel Leal lembra que a igreja matriz estava localizada em frente a Loja Elder, bem no meio da avenida. “Todo final de semana o povo sempre reunia na igreja. Não tinha televisão naquela época... Não tinha nada. Aí a rapaziada, as meninas, sempre andavam pra cima e pra baixo na avenida, num trechinho só, era daqui da praça da Bíblia até pra cá, era só esse trechinho aqui. No domingo, quando tinha o movimento da igreja, o povo vinha mesmo. A igreja era o grande acontecimento da semana.”  Segundo Manoel Leal, o trabalho junto ao seu Gabriel Constâncio o aproximou do trabalho pastoral e “passei a sentir gosto pelas comunidades e pelo povo necessitado. Até hoje a gente vê tantas pessoas que necessitam e, às vezes, são esquecidas e não são valorizadas, essas pessoas que passam necessidades. Só quem trabalha nesses programas sociais assim é que vê o que é passar necessidade.”
Em um de seus muitos trabalhos, Manoel Leal lembra que ajudou a construir a igreja matriz, que ficava no redondo – rotatória entre a Avenida Brasil e a Tancredo Neves -, e depois as outras construções da igreja, como a sede atual. Quando já não contribuía com a força física, dedicou-se aos trabalhos comunitários e pastorais da Igreja Católica.
DONA MARIA - Das participações em quermesses e festas religiosas, Manoel Leal conheceu Maria Nascimento da Silva. Foi amor à primeira vista. Casaram-se em 1969. Enfrentaram muita dureza e viveram momentos de alegria. Construíram uma família. Quatro filhos, sendo dois homens (Evanildo e Leandro) e duas filhas (Zelma e Rosani). Sempre dedicada a cuidar da família. Foi a união de uma mineira migrante (1965) com um mato-grossense que resultou em trabalho, materializando sonhos e enfrentando os desafios de, juntos, se edificarem, e participarem da construção de Tangará da Serra.

>> Iolanda e Rodney Garcia - Especial DS

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